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Os seres evoluídos e a esponja

Toño é um cara de 41 anos que vive em uma cidade de 80 mil habitantes chamada Palencia, na Espanha. Ele mora em uma casa que pertencia à empresa que faz o bombeamento de água para toda a cidade. Atrás da casa está a bomba, mas ele não a escuta porque seu quarto não está nos fundos – mas quem dorme na sala sim, divide o som dos grilos com o ruído da bomba de água. Não está no centro da cidade, e sim a 3 quilômetros de lá, no meio da estrada, uma ruazinha só dele, e a casinha, com flores na entrada. Antes Toño tinha uma horta que era genial, porque tudo o que ele comida vinha dela, e ele tinha uma pessoa que cuidava da horta e vendia o que se cultivava ali. Mas agora que ele não tem mais a horta, a área se mantém muito mais limpa e sem bichos, já que ele chama o amigo pastor que traz as ovelhinhas e elas ficam ali comendo a erva que cresce, e limpando o terreno! E no fim do dia as ovelhas voltam pro seu canto. A casa não tem calefação, mas é aconchegante. Foi toda reformada por ele durante 5 anos, pintada, janelas novas, mas a estrutura, o pé direito alto, se mantém. Ele ganhou o direito de cuidar da casa “gratuitamente”, já que alguém tinha que estar ali morando, pra tal da bomba que abastece a cidade não ficar jogada às traças. E já faz 10 anos que ele mora ali, 5 desses com a ex mulher (todos os quarentões têm uma ex mulher na vida, e digo que até muitos trintões também tem, nada mais dura para sempre hoje em dia...).

Toño tem um carro, tipo um Fiat Dobló, sabe aquele com teto mais alto e porta deslizante do lado? Esse mesmo. Um porta mala do tamanho das coisas que ele gosta de fazer: ali cabem coisas de montanhismo, instrumentos que ele usa pra tocar nas festas das cidadezinhas, barracas, sacos de dormir de até menos 20 graus, sticks, etc. Ele também já teve um cachorro, que morreu ano passado. Como não para em casa, não quer ter outro, porque cachorro precisa de atenção. Nem rede ele consegue pendurar na porta de casa (eu visualizei uma rede e fui logo perguntando,sugerindo...) porque não consegue ficar parado lendo um livro. Ele tem que se mover, sair, explorar. Sabe aquelas pessoas mais evoluídas? Não sei, me senti uma “nada” perto dele, mas isso não me fez mal. Acho que 10 anos mais e eu já não terei vontade de conhecer as grandes capitais, e sim ir subir morrinhos nos diferentes países. Não vou mais tirar foto na frente do Coliseu em Roma, só vou testar meus limites subindo um vulcãozinho no Equador. Isso já vai me satisfazer (será?). É incrível, a gente pensa em evoluir, em ficar mais velho e só ficar em hotéis bons, conforto, etc. E o Toño não. Adora um camping. Tem uns sacos de dormir pra menos 5 graus que nem te conto que bonitos são! E ainda tem um amigo, mais velho que ele, que tem um saco de dormir de penas de ganso, que de tão quente não deixa ele dormir dentro da barraca senão ele morre assado. Resultado: o cara dorme ao ar livre em pleno tempo do norte da Espanha, mais frio que no sul (eu estava congelando!).

Mas é o que eu sempre concluo: há lugares que só se conhece dessa maneira. Acampando. Subindo um morro horrível de inclinado e cheio de pedras. Sofrendo, mas desfrutando ao mesmo tempo. Com amigos. Todos simples, sem luxo, ninguém, nenhum deles busca o luxo nessa vida, só curtir a natureza, os amigos, os bons momentos, as paisagens, as sensações. Sem dúvida é gente evoluída. Porque o que se leva da vida são esses bons momentos, mais nada, nada mesmo. E o Toño eu nem conhecia. Ele me achou pelo couchsurfing – eu sou muito sortuda, só atraio gente assim, que me acrescenta, me mostra mundos diferentes. Me uni a um grupo de 18 pessoas e passamos um fim de semana genial, andando de caiaque, subindo montanhas, testando os pulmões e os limites, e, no meu caso, fazendo bolhas nos pés...hehehe mas foi bom pra dar mais uma canseira e seguir amaciando minha bota, e aprender a cuidar das bolhas antes que me passe o mesmo enquanto eu estiver no Caminho de Santiago...

Então assim, as coisas seguem acontecendo na minha vida quando eu menos espero, e eu sempre aprendo e me inspiro com essas pessoas do bem. Elas sempre têm algo a ensinar (sem saber) e eu, sempre algo a aprender. Sempre...



Escrito por Suz às 18h18
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Nacío pa mojá!

Eu ainda não contei da festa inédita pra onde fui este ano: a Batalha Naval de Vallecas! Pois é, estes espanhóis não têm o que inventar, e não é que a idéia é genial? Imagina um calorão, o que é que você mais deseja (do fundo do seu coração)?? Que te joguem um balde de água da cabeça aos pés e você fique empapado, não é? Hehehe Tudo bem, pode até não ser o desejo explícito, afinal se você está na cidade grande isso soa ridículo. Mas em Vallecas, um bairro dessa cidade grande, o ridículo é aceito por todo mundo, e elegem um dia pra isso: geralmente é um fim de semana no final de julho. Tem até concurso de paellas e você ainda come de graça (e repete!). E daí vão aparecendo os tipos mais esdrúxulos, e você começa a rir sem parar. O gordão sem camisa, com óculos de mergulho e sua super pistola de brinquedo.....os caras que vêm até com a maquiagem de jogadores de futebol americano, que parecem que estão indo a uma guerra de verdade! Eu com meu humilde spray de me borrifar na praia não era páreo para eles! E nem pros amigos do nosso “guia” pela guerra de água: eles já passaram nos chinos e compraram baldes! E daí começa a aparecer cada vez mais gente com baldes, jarras de fazer suco, armas com a munição (leia-se água) nas costas, bóias de patinho, bóias nos braços, bixigas cheias de água...e você está distraído até que chega alguém na tua mesa e joga meio balde de água nas tuas costas! Mas não dá pra ficar bravo, afinal, quem ta na Batalha Naval é pra se molhar, e muito!

Depois de umas paellas, umas cervejas e uns banhos de água, saímos em direção à rua onde acontece a primeira parte da guerra. Já no caminho todos paravam para abastecer suas armas (baldes, lo que sea), e enquanto um enchia um balde, o outro vinha de surpresa e entornava um balde inteiro de uma vez. E assim ninguém saía da fontezinha, a guerra já tinha começado ali mesmo! Hehehe Quando conseguimos focar e fomos ao início da coisa, chegamos e tinha uma dúzia ou mais pessoas dentro de um chafariz quase seco, pegando o que restava de água (suja) e jogando nas pessoas. E o resto, com seus baldes na cabeça, ficava embaixo dos prédios pedindo que as pessoas jogassem água pra abastecerem esses baldes e molharem mais gente. E assim íamos....na ruelinha, sendo molhados pelas pessoas dos prédios. Às vezes sabendo que íamos ser molhados....às vezes sendo pegos de surpresa...mas muito divertido, porque é uma cena que você nunca vê na vida: o bairro inteiro se divertindo, seja de cima dos prédios, seja debaixo, todos ali para serem molhados. Quase uma guerra de tomate, mas com água! E nessa guerra você não fica bravo com o seu inimigo, você até agradece, porque com o calor que fazia....daí no caminho mais tipos raros: uma mulherada com touca de tomar banho....um cara com gorro de natação e escrito no braço “nacío pa mojá” (nascido para molhar)...enfim, chegamos ao final, e ali era a rua “oficial”, digamos, onde havia até uma placa: daqui em diante você se molhará. E vários caminhões pipa distribuindo água nos baldes, e várias pessoas mais se encharcando. Uma coisa absurda de surreal.

Foi divertido, sadio, alegre, éramos como em 15 do CS e tiramos altas fotos geniais, encharcados, sorrindo, contentes. Uma boa maneira de espantar o calor num dia de sol em Madrid. Pena que a festa só acontece uma vez ao ano....mas ano que vem já levarei meu balde e ninguém me segurará! ;)



Escrito por Suz às 16h49
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