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It’s not over until it’s over

 

 

Acabei de voltar do meu último San Fermines. Eu pensei que nunca fosse dizer isso, mas sim, acabou. Acho que eu mudei. Em 4 anos uma pessoa muda, né? Se eu não mudasse seria mesmo estranho, e eu ia achar que estava realmente no caminho de virar um Peter Pan. Não sei, não gosto mais de ficar dançando o dia todo, prefiro ao invés disso ter conversas legais com pessoas interessantes, perder meu tempo fazendo novas e construtivas amizades em vez de encher a cara de cerveja. Eu percebi isso esse ano, e percebi que perdi uma boa possibilidade de um novo contato ou futura amizade com um holandês que parou ao meu lado na porta de uma vendinha, e ficou me perguntando o que era melhor: San Fermines ou o Carnaval do Brasil. E eu falei o Carnaval, claro, pois as pessoas são mais alegres e comunicativas, há mais troca. Mas a tonta aqui deixou a conversa no meio porque seus amigos já estavam andando a um novo bar. Claro que me arrependi depois de 10 minutos e, sabendo que não ia mais ver o holandês da conversa interessante, prometi a mim mesma nunca mais faze isso: nunca mais romper uma conversa pra ir atrás dos amigos apressados.

Mas enfim, esse não foi o único motivo que me fez decidir hoje que não volto mais aos San Fermines. Esta manha nós entramos em um bar para ver a corrida dos touros pela TV. Tudo muito bem, 3 rezinhas, tudo muito bom, começa a corrida e nada mal até uma pessoa cair no chão e ser gravemente chifrada pelo touro no peito. Como se não bastasse, a pessoa ficou jogada no chão e o touro veio de novo, dessa vez levantando ele pelas pernas e jogando pro ar, rasgando a calça e a cueca, dando milhares de chifradas na perna enquanto as pessoas puxavam o touro pelo rabo pra ele parar, mas ele não parava. No bar, todos boquiabertos e sem respirar. Até que alguém conseguiu puxar o cara feridíssimo e já veio a ambulância para levá-lo. Outro cara também foi atingido, mas não no peito, só na perna, e puxaram ele pra debaixo da baia a tempo. Como dizia a minha amiga, esse nasceu de novo. Agora o outro...não consegui ver o que deu. Mas essa coisa de vc ver uma corrida e não esperar ver casos drásticos, e de repente ver uma pessoa sofrendo na mão do touro, embrulha o estômago. Você nunca está preparado pra ver uma quase-morte ao vivo. Quando é um vídeo e te dizem “este é o vídeo do cara que morreu numa corrida de touros” tudo bem, você está preparado para o que vai ver (e se não quiser, não vê). Mas quando você não está preparado e acontece tudo isso, é a sensação mais horrível do mundo. Tudo bem que os caras são burros de correr e participar dessa tradição idiota. Tudo bem, eu torço pro touro, e torço pra que a tradição deixe de acontecer um dia depois que eles vejam que não vale a pena perder vidas pra manter essa babaquice. E alguém tem que levar o pato. “Ponto pro touro – pelo menos ele matou alguém antes de morrer cruelmente....” Isso é o que pensamos. Mas na hora, ver uma pessoa toda bonitinha, arrumadinha, de camisa branca sem um pingo de calimoxo (a mistura louca de vinho e Coca Cola que tomam esses espanhóis) da noite anterior, calça, cinturão vermelho, ser cruelmente chifrada e sofrer na tua frente, e sangrar na tua frente, e ter a calça arrancada na tua frente e ele não poder fazer nada porque dói tudo e ele talvez esteja inconsciente naquele momento....a cara de dor, a camisa ensangüentada no peito. Dá pena dele. Eu não estava pensando no touro (claro, 1 a 0 pro touro), naquele momento você não dá razão pro touro. Você fica querendo que a pessoa seja salva dali rápido, que um milagre aconteça e que o chifre não tenha entrado onde não deveria entrar...o nó na garganta, o enjôo, e eles mostraram a repetição da cena em 3 ângulos diferentes, de cima, de lado, do outro lado, eu não agüentava mais e saí dali. E no entanto a imagem está na minha memória e eu sigo angustiada. Coisa mais horrível.

Então é por isso que eu decidi que não preciso mais ver isso. Acabou. Eu evoluí, há coisas novas no mundo e vou conhecer essas coisas novas – e com certeza mais pacíficas que um San Fermines. Minha calça branca, que era usada só uma vez por ano nessa época, será aposentada. E eu seguirei meu caminho de me tornar uma pessoa mais atenta às outras pessoas. Chega, deu. Cansei. Acabou. Adeus San Fermin.

 



Escrito por Suz às 04h38
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