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Tá bom...eu conto! | ||||||||||||||
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Babá do Jack
Recebi uma proposta para uma tarefa interessante: cuidar do Jack Daniels, um gato persa fofo de 10 anos (que nunca deu bola para mim), enquanto seus donos, Bianca e Luiz, faziam o Caminho de Santiago por duas semanas. Eu iria morar na casa deles nesse tempo, aproveitando que estava me mudando de piso, e assim o bichinho ia ver que tinha gente em casa cuidando dele e ia ficar bem. Sim, porque tem animalzinho que fica doente de saudades do dono, ainda mais se não lhe dão bola. Todo mundo sabe que eu tenho 5 cachorros (no Brasil), e a maioria das pessoas que gostam de cachorros costumam não gostar de gatos. Mas é da minha natureza ser aberta a todo tipo de experiências, e faz muito tempo eu convivi com o gatinho de uma amiga da faculdade por uma semana enquanto eu lhe fazia uma visitinha em Montreal, no Canadá. Assim que não, eu não tenho nada contra gatos. E mais, tenho curiosidade, sempre. Então o desafio foi aceito, e na verdade aceitei muito honrada, porque é uma tarefa importante e de extrema confiança alguém lhe abrir a casa para que você cuide dela e do seu habitante que, infelizmente, não ia poder fazer o Caminho. E de certa forma era uma maneira de eu estar participando do caminho deles, já que eu os conheci porque encontrei o blog da Bianca na net, sobre o seu primeiro Caminho, e quis conhecê-la. Nossas primeiras conversas foram sobre coisas relacionadas a caminhadas, mochilas, tempos, peso, bolhas, botas, e ficamos amigos. Passei a participar do coral e logo fiquei enturmada com essa galera enorme e divertida que é parte da minha família brasileira aqui em Madrid. Então pra mim é como se tudo tivesse um desfecho, tudo relacionado e "escrito": ela sai para o seu terceiro Caminho, Luiz para o seu segundo, e eu fico cuidando do seu gatinho e recebendo notícias da empreitada. O meu será em setembro, se Santiago quiser :) E o Jack...o Jack é um gato lindo, parece o Garfield. Desconfiado como todos os gatos, limpinho como todos eles, nos dois primeiros dias que fiquei aqui, com os donos around, eu fui vendo as tarefas que caberiam a mim nas próximas semanas e aprendendo como se escova, como se limpa a areia, como se dá água pra ele, como se dá um pouco do caldinho de feijão pra ele lamber, etc. Eu deveria ter feito um diário dia a dia, mas já passou uma semana, então resolvi postar aqui um resumo da evolução da amizade entre eu e Jack. No primeiro dia nosso “a sós” no apê, ele fazia como fazia sempre: eu passava do lado dele, ele fugia. Ficava me olhando e me seguindo, mas não deixava eu chegar perto, peguei a escova, me sentei no tapetinho dele e fui tentar escová-lo, ele abriu a boca, mostrou os dentes, como se estivesse falando “sai daqui agora que eu não gosto de você”. Eu entendi o recado e saí, mas não desisti. Dia 2: acordo, e não sei como é que ele sabe quando eu abro os olhos, mas o fato é que abro a porta e ele ta ali me esperando. Troco a areia, reponho a água, ponho mais comida, ele me segue pela casa. Eu converso muito com ele. Vou ao trabalho, e quando volto, recebo ele me esperando na porta, faço todo o ritual de novo e me sento no seu tapete com a escova na mão: agora vai! Ele vem lentamente, faz manha, o rabo balança pros lados (isso pra um gato quer dizer que ele está nervosíssimo com a situação). Ambos nervosos, mas eu não posso mostrar que to com medo. Dou a primeira ,determinada. Ele vê que eu posso levar jeito pra coisa, e deixa. Mas o rabo segue nervoso. Escovo um pouquinho, ele dá uma volta, escovo mais um pouco, e ele desiste de mim e vai sentar embaixo da mesa. Deve ter pensado: “essa aí tem jeito pra coisa, vamos ver se eu dou uma chance pra ela da próxima vez”. Dia 3: Eu sento na mesa e ele vem miar pra mim. Me disseram que quando ele mia ele quer conversar, quer atenção. Um cachorro tem latidos diferentes pra mil coisas, se o miar de um gato é só pra conversar, então é mais fácil. Eu tava comendo, e ofereci uma pontinha do dedo do queijo pastoso do pão. Ele veio com a lingüinha dele, primeiro cheirou, saiu um pouco como que desconfiando se eu ia querer envenená-lo ou algo, pensou bem e resolveu, mais uma vez, me dar uma chance. Veio e deu uma lambidinha no queijo. Lambida dada, virou as costas e se foi. E esta noite foi diferente: quando eu peguei a escova, ele veio mais rápido pra perto de mim e o rabo estava balançando menos. E ele deixou que eu desse mais escovadas, e saiu. Com certeza estava pensando: “se ela está me cuidando acho que ela não quer o meu mal, nem quer pegar o meu lugar na casa. Acho que vou ser menos cruel com a coitadinha.” Dia 4: Sentei no chão do banheiro para mais um avanço na incrível relação que vinha sendo cosntruída. Peguei o potinho azul pequeno, pus água e ele veio me olhar. Pus o dedo na água e levantei, e ele veio e lambeu a gota. Fiz isso umas outras 10 vezes, e ele adorava (que pilantra! 10 anos e quer beber água na boquinha!!). Daí ele enfiou aquela cabeça peluda e bigoduda no pote e bebeu água sem parar! Que orgulho da Tia Suzana!!! Nem preciso dizer que a escovação este dia foi sensacional, o rabo já estava levantado como um pavão, e além disso ele deitou no tapete e, quando escovei o rabo, ele lambeu o peito hehehe, ação reflexo. Dia 5: Eu já estava vibrando com todas as conquistas, agora só faltava ele me deixar pegá-lo no colo. Recebi instrução dos donos que podia pegá-lo como quisesse, mas que ele ia se assustar. Dito e feito, peguei-o de costas e o pus no meu colo como um neném. Durante uns 3 segundos ele ficou parado me olhando e com certeza pensando “essa louca ta querendo demais de mim”. Coloquei-o no sofá e ele foi tratando de sair correndo. Mas tudo bem, agora eu já estava vibrando com tudo e a escovação e a aguinha na boca já viraram rotina da manha e da noite haviam já dois dias. Dia 6: a Tia Suzana adora a interação que rola quando ela o escova. Parece que é um momento só pros dois em que eu estou ali pra ele e ele está recebendo 100% da atenção que ele sempre deseja. Ultimamente ela é que tem que dizer “agora chega”, senão ele fica ali uma hora virando de um lado pro outro pra ser escovado. Ele não sai mais do tapetinho! Às vezes ele vai pro tapete do banheiro e deita ali, e isso já aconteceu duas vezes antes da hora do meu banho – parecia que ele tava pensando “vou me colocar no meio do caminho dela pra ver se ela me dá mais umas escovadas antes de ir tomar banho”. E sempre que eu saio do banheiro ele ta sentado ou deitado na frente da porta. Dia 7: Tia Suzana adormece no confortável sofá da sala com um puta sol lá fora, e Jack adormece na cadeira da mesa do computador (é dia do trabalho e o gato quer trabalhar!!). Levanto, ele vem até o sofá, mia pra mim e eu fico querendo pegá-lo no colo, colocá-lo no sofá, na sei se ele gosta, não sei se ele consegue subir sozinho. E ele acaba de dar um pulo e subir no sofá. Fica bem na outra esquina, longe de mim, mas tranqüilo. Já ta deitadinho, tranqüilo, como que me imitando: dia do trabalho, dia de descansar! Os olhos fecham um pouquinho, que sono dá quando a gente fica sem fazer nada, né? Ele boceja. Eu mando um beijo pra ele, assim, no ar. Ele boceja de novo E assim estamos, eu e meu companheiro, sentados no sofá, admirando nossa capacidade de não fazer nada o dia inteiro. Bianca e Luiz mandam suas notícias do Caminho e estão bem. E Luiz disse que a Bianca tava é morrendo de ciúmes :)
Escrito por Suz às 14h24 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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